Não escrevi essa obra para oferecer respostas...

Escrevi para expor a falência das perguntas.

A modernidade sustentou-se sobre fundações frágeis: sujeito, progresso, razão, linguagem, história.

Todas elas ruíram.

Algumas ainda resistem como ruínas decorativas. Outras se impõem como zumbis conceituais, exigindo fidelidade mesmo depois da morte.

O que faço aqui não é reconstrução...

É exumação.

Um pensamento digno do nome só pode nascer onde os fundamentos já falharam. Este livro nasce nesse lugar.

Escolhi os autores que compõem o trajeto porque eles souberam tensionar até o limite a própria estrutura que habitavam.

Platão, Kant, Nietzsche, Lacan, Foucault, Deleuze, Fisher, Negarestani...

Nenhum deles aparece aqui por erudição ou moda. Cada um cumpre um papel destrutivo - uma bomba implantada no edifício moderno.

Não me interessa o conforto do ecletismo - interessa-me o rigor da demolição.

Há quem pergunte se isso tudo não é apenas crítica cultural, ensaio existencial, ou filosofia de laboratório.

Nenhuma dessas categorias me serve.

Este texto não é interdisciplinar.
É transgressor.

Se precisa ser nomeado, que seja: autópsia filosófica da modernidade.

Pensar como quem opera sobre um cadáver que ainda é adorado como Deus.

Não há centro aqui. Nenhum princípio organizador, nenhuma narrativa redentora.

“Sem centro” não é uma metáfora - é uma posição ética.

O pensamento que ancora essa obra não substitui um fundamento por outro.

Ele pensa desde o vazio. E pensar desde o vazio é pensar em responsabilidade, não em transcendência.

O leitor ideal?

Não é aquele que busca sentido - é aquele que já não confia em quem promete sentido.

Escrevi para os que já estão cansados de esperar.

Para os que suportam pensar mesmo sem promessa.

Para os que ainda preferem o inferno da lucidez ao paraíso da ignorância.

Essa obra age ao desativar, romper o ciclo da repetição.

Ao forçar o pensamento a sair de suas órbitas previsíveis.

Não oferece chão, mas oferece um ponto a partir do qual é possível parar de fingir.

Não entrega esperança, mas oferece algo mais maduro: um pensamento que não recua.

Aqui, agir é renunciar à ilusão...

É abandonar a crença de que há um telos esperando no final.

Agir sem promessa.
Pensar sem redenção.
Ser sem centro.

Se ainda há algo que merece ser preservado do que chamamos humano, é apenas aquilo que resiste à captura:

O gesto criador, a recusa, a potência de negar. O resto - identidade, substância, unidade - é entulho metafísico.

“Sem Centro” não quer agradar.
Ele quer forçar.

Se você chegou até aqui, é porque já sentiu que algo não se sustenta.

O que vem a seguir não é uma resposta.

É a exposição da falência como possibilidade.

Destrua o centro.
Pague o preço. E pense.

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SUMÁRIO


Parte I - Fundamentos e Estruturas

  1. O Mundo das Ideias (Platão)

  2. Substância (Aristóteles)

  3. Virtude como Hábito (Ética Aristotélica)

  4. Ataraxia (Helenismo - Epicuro, Estóicos, Céticos, Cínicos)

  5. Persona e Sombra (Jung)

  6. Vontade de Potência (Nietzsche)

  7. Ser‑no‑Mundo (Heidegger)

  8. Inconsciente como Estrutura (Lacan

  9. Biopoder (Foucault)

  10. Sociedade do Cansaço (Byung‑Chul Han)

  11. Alienação (Hegel)

  12. Vontade Universal / Imperativo Categórico (Kant)

  13. O Real, o Imaginário e o Simbólico (Lacan)

  14. Desconstrução (Derrida)

  15. Mente Estendida (Andy Clark & David Chalmers)

  16. Diferença (Deleuze)

  17. Fenomenologia do Corpo (Merleau‑Ponty)

  18. Poder Disciplinar (Foucault)

  19. Inconsciente Coletivo (Jung)

  20. Estruturalismo Linguístico (Saussure / Lévi‑Strauss / Barthes)

Parte II - O Sujeito em Fragmentos

  1. Sloterdijk - O Sujeito Esférico

  2. Judith Butler - Gênero, Corpo e Performatividade

  3. Paul B. Preciado - Corpo, Técnica e Farmacopornografia

  4. Jean‑Luc Nancy - O Sujeito como Ser‑Com

  5. O Sujeito do Cansaço - Síntese Crítica da Subjetividade Contemporânea

Parte III - A Exaustão da Forma Humana

  1. Donna Haraway - Ciborgue, Simbiose e a Queda da Fronteira Humana

  2. Bruno Latour - Gaia, a Terra como Sujeito Político

  3. Rosi Braidotti - Pós‑Humano, Vida e Subjetividade Expandida

  4. Eduardo Viveiros de Castro - Perspectivismo e o Fim da Natureza como Fundamento

  5. Fim do Humano - Síntese Crítica da Ontologia Antropocêntrica

Parte IV - O Tempo Sem Garantias

  1. Mark Fisher - Realismo Capitalista e a Exaustão da Imaginação

  2. François Hartog - Presenteísmo e o Regime de Historicidade

  3. Jean‑Pierre Dupuy - A Catástrofe como Estrutura Antecipada

  4. Reza Negarestani - Racionalidade Inumana e o Tempo Sem Sujeito

  5. O Tempo Suspenso - Síntese Crítica da Ruína Temporal